Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo, Sem categoria

O Agro construído através das gerações

A agricultura familiar é responsável por mais da metade dos alimentos consumidos no Brasil

Fernanda Pereira, Flávia Gasparini e Nayara Campos

Pão, queijo, leite, fruta. Arroz, feijão, carne, salada. Macarrão, tomate, suco,
chocolate. Do café da manhã ao jantar, o agronegócio participa da rotina alimentar de todos. Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/ 2016), são 4,5 milhões de brasileiros compondo o cenário agrícola. Do campo à mesa, o produto consumido é também fruto do trabalho de agricultores familiares, que, de acordo com dados governamentais, são responsáveis pela produção de 70% dos alimentos consumidos no Brasil.

Apesar do agronegócio estar envolvido em polêmicas acerca do uso de agrotóxicos,
do descuido no tratamento dos animais e do impacto causado ao meio ambiente, a agricultura familiar se mostra como uma outra face do agro. A atividade desenvolvida pelos pequenos agricultores pode ser considerada menos agressiva para o planeta, uma vez que exige menos do solo e dos animais. Este modo de produção, por ser rústico, muitas vezes, tem de seguir o ciclo e o ritmo da natureza, o que faz com que o impacto gerado no ambiente seja levado em consideração na hora de plantar ou de trabalhar com o gado. O pequeno agricultor sabe que, se não cuidar da terra e dos animais, não terá o que colher, o que cultivar e o que comercializar.

A lei nº 11.326/2006 regularizou o trabalho de famílias que vivem do campo. De
acordo com a norma, são considerados agricultores familiares, os indivíduos que exercem atividades no meio rural, com força de trabalho formada predominantemente por membros da família, que não possuam nenhum título maior do que quatro módulos fiscais e que tenham, na atividade agropecuária, uma fonte de renda. No mês em que se comemora o Dia Internacional do Agricultor Familiar (25 de julho), você conhece a história da Família Martins Gomes, pequenos agricultores da cidade de Iacanga (SP), a 379 km da capital paulista.

Tá no sangue!
Formada por José Martins Gomes (Zé Martins) e Maria Aparecida de Carli Gomes
(Dona Cida), a família sempre manteve seus trabalhos na área rural. Mesmo quando solteiros, eles trabalhavam na roça com seus respectivos familiares. Dona Cida lembra que, ao se casar, seu pai entregou a enxada dela para o futuro marido: “ele falou, tá aqui a enxada dela carpir. Ela só gosta dessa”, comenta.

“tem gente que acha que vivemos de herança, mas conseguimos tudo com a enxada”

Com a união vieram os oito filhos: Edinael, Ezequiel, Daniel, Dalva, Vanderlei,
Ladimir, Valdeci e Deise. Todos trabalharam durante a infância no sítio, que era a única forma de sustento da família. Apesar das dificuldades financeiras, o casal sempre incentivou o estudo: “nós ‘pusemos’ eles para estudar. Estudaram até o ginásio, porque não tínhamos dinheiro para pagar uma faculdade”, desabafa Dona Cida, “a Dalva pagou a faculdade sozinha, costurando. É um trabalho muito difícil de fazer”. A família conquistou tudo que possui atualmente com o trabalho no campo: “tem gente que acha que vivemos de herança, mas conseguimos tudo com a enxada”, conta.

Foto 1(Da esquerda para a direita (em cima): Dalva, Dona Cida, Zé Martins, Ezequiel, Daniel, Edinael.
Da esquerda para a direita (agachados): Deise, Valdeci, Ladimir e Vanderlei)

Com os passar dos anos, alguns filhos decidiram sair do ambiente rural e procurar
emprego na capital: Edinael, Ezequiel, Vanderlei e Ladimir. Dalva, por sua vez, mudou-se para Bauru (SP) para realizar o sonho de ser advogada. Os outros continuaram em Iacanga, trabalhando no sítio e ajudando na plantação de milho, de algodão e em outros afazeres.

Influenciados pelos pais, Valdeci e Daniel encontraram no cultivo de hortaliças uma forma de sustento e, após a família adquirir um novo sítio, começaram a produção. Utilizando materiais que encontravam pelo local ou pela cidade, montaram na propriedade uma horta que os abastece e que atende à demanda de boa parte dos moradores de Iacanga: “O sítio tem tudo que é emendado, que é aproveitado, não tem nada de luxo”, comenta Roberta Martins, esposa de Vanderlei.

Enquanto isso, a agitação e as condições de vida em São Paulo, fizeram com que,
Ladimir e Vanderlei, voltassem para a sua cidade natal. Após pesquisas, eles investiram no setor granjeiro, e atualmente, contam com três granjas. “Quando minha irmã (Dalva) morreu, meus pais ficaram muito para baixo. Foi o que me instigou a comprar um sítio (que leva o nome da irmã). Eles pararam de falar da morte e falaram só do lugar. Ele tinha que se manter e pensei no que eu poderia fazer”, conta Ladimir, “tá no sangue. Minha mãe e meu pai são da roça, então acho que é isso. Eu cresci no meio disso”.

Para Dona Cida, a escolha dos filhos de trabalhar no agronegócio não era a primeira
opção de futuro que ela os incentivava a seguir: “queria que eles tivessem um emprego bom, limpinho, mas eles não gostam, eles gostam é do sítio”, diz.

“o que toca o Brasil hoje é a agronomia, é o agronegócio”

Juventude rural e o agro no cenário brasileiro
Todos da família Martins Gomes que vivem do agro não possuem graduação na área.
Na contramão disso, Adriano (filho de Daniel), que foi criado no sítio assim como seus
familiares, está cursando engenharia agronômica por influência do pai: “é uma área que não tem como ser ruim. É muito ampla, porque o que toca o Brasil hoje é a agronomia, é o agronegócio. Eu tenho meu outro serviço na prefeitura, mas formando eu tenho vontade de sair e seguir carreira”, comenta.

Foto 2(A criação de animais, como patos, gansos e gado, também compõe o ambiente do sítio.
Na foto, Adriano alimenta a jumenta “Ju”)

Andrei, de apenas seis anos, também sonha em seguir na área: “eu queria poder
trabalhar em dois sítios”, relata. Ele ajuda Daniel na horta e o pai (Vanderlei) na granja: “faz um buraco, coloca a semente e depois tampa o buraco”, explica sobre o cultivo das hortaliças. Apesar da pouca idade, ele já demonstra afinidade com o trabalho no campo, mas, ao ser questionado a respeito do futuro do filho, Vanderlei não hesita: “Eu acho que a gente tem que fazer eles estudarem e eles vão decidir o que vão querer ser. Eu não dou palpites”, explica.

Foto 3(Andrei mostra a horta dos tios onde cultivam alface, repolho, rúcula, brócolis e outras hortaliças)

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 6,5 milhões de
jovens entre 18 e 32 anos vivendo no campo. É importante que existam incentivos e
condições suficientes para que esses jovens não abandonem o meio rural, como forma de conter o êxodo rural e evitar a falta de alimentos na mesa dos milhões de brasileiros que dependem dos produtos da agricultura familiar. O Plano Nacional de Juventude Rural, decretado em 3 de maio de 2016, é um exemplo de ação governamental com o objetivo de articular políticas públicas para a manutenção e garantia dos direitos da juventude no campo, criando também qualidade de vida e independência socioeconômica.

A saída das pessoas do meio rural para as cidades pode deixar transparecer a ideia de
que o ambiente agrário não é economicamente atrativo e vantajoso, porém, os dados
divulgados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em 2017,
demonstram um cenário diferente. Segundo a instituição, no ano passado, o agronegócio teve contribuição de 23,5% no PIB brasileiro, e, a projeção para este ano é para que haja crescimento entre 0,5% e 1% no setor. Ainda segundo a CNA, de janeiro a outubro de 2017, as contratações foram maiores do que as demissões em mais de 93 mil vagas.

As condições ambientais do Brasil, somadas ao impacto do agronegócio na economia brasileira, fazem com que este setor viva um cenário favorável no país e a agricultura familiar pode representar uma forma mais humana e sustentável de se enxergar o agro.

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