Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo

Da nuvem para a terra: como os drones e a agricultura de precisão podem mudar o cenário da agricultura no Brasil

As tecnologias oferecem em detalhes a incidência de pragas e doenças, avalia falhas na lavoura e aprimora o manejo

Aressa Joel

Não é segredo que as tecnologias já fazem parte da rotina do ser humano. Pensando em um dia comum, por exemplo, essa conexão fica bem clara: acordamos e já procuramos as notícias do dia em nosso smartphone, vamos para o trabalho e já conectamos algum aplicativo para escutarmos músicas durante o caminho, chegamos no trabalho e não saímos de algum celular, computador, etc; chegamos em casa e logo ligamos nossa smart tv. Porque hoje em dia não se faz mais nada sem tecnologia. Mas não é só nas grandes cidades que isso acontece. A tecnologia deixou de fazer parte apenas do urbano faz tempo. No meio rural a integração entre tecnologia de ponta e lavoura ganha grandes proporções a cada dia que passa.

Pode ir tirando da cabeça essa ideia do agricultor como um caipira mascando um pedaço de capim e usando um celular do tipo “tijolão”. Quem não usa tecnologia no campo ainda, logo usará. E o sentido da frase não está em caracterizar a tecnologia de modo distópico, no estilo Black Mirror ou Eu, Robô. Muito pelo contrário! De acordo com Fernando Mendes Lamas, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em seu artigo “A Tecnologia na Agricultura”, além de facilitar a vida do produtor, as novas tecnologias deverão garantir a segurança alimentar em perfeita sintonia com a conservação ambiental. E é nesse cenário de grandes personagens como tecnologias de semeio, processamento remoto de imagens e dispositivos inteligentes que entra o tão conhecido Drone ou Vant (Veículo Aéreo Não Tripulado).

O funcionamento dos VANTS

Mais conhecidos popularmente por Drones, essa tecnologia  está geralmente relacionada com a criação de imagens para conteúdos audiovisuais ou então simplesmente como brinquedos para os mais curiosos. Mas seu uso, na realidade, já ultrapassou esse senso comum. Hoje em dia os drones com uma tecnologia ligada a programas computacionais para aquisição, tratamento e análise das imagens captadas por máquinas fotográficas embarcadas, já são capazes de identificar a existência de pragas e falhas, problemas de solo, áreas atingidas por erosão e assoreamento de rios, área atacada com nematoide e deficiência hídrica.

drones-images-3525497_1920
O termo “Veículo Aéreo Não Tripulado” é mundialmente reconhecido e inclui uma variedade de aeronaves que são autônomas, semiautônomas ou remotamente operadas. Foto: Pixabay

Para entender o funcionamento dessa tecnologia deve-se partir de dois pontos: o drone em si e as ferramentas diversas que o compõe. A parte do drone é a mais simples e consiste em pequenos veículos voadores controlados remotamente por um operador. A configuração mais comum é formada por  quatro motores localizados nas extremidades de quatro eixos. Os motores são elétricos e movimentam hélices que fazem o robô voar, seguindo a mesma ideia de funcionamento de um helicóptero. Os modelos mais simples destes robôs planadores são comandados através de um aplicativo especial instalado em um smartphone ou em um tablet.  E é aí que entra o segundo ponto.

Esse “aplicativo” especial que o drone precisa ter é diferenciado quando o seu uso está na agricultura, já que ele precisa de uma boa técnica de geoprocessamento para que um computador possa indicar com cores específicas os problemas que provocam prejuízos nas propriedades. Algumas dessas ferramentas são o software Siscob e o GeoFielder. O primeiro analisa a cobertura sobre o solo classificando e possibilitando a quantificação de alterações e a geração de mapas temáticos.

Já o GeoFielder permite o processamento de imagens que mostram a situação atual da lavoura. Dessa forma, o agricultor tem maior controle da inspeção, execução de tarefas, deslocamento, posições e ocorrências durante operações com máquinas agrícolas e outros veículos. Ambos os softwares foram desenvolvidos pela Embrapa e estão disponíveis para download no site da empresa.

000
Infográfico: Aressa Joel. Fotos: Picktochart

 

A ferramenta na prática

Os VANTs para agricultura estão sendo colocados em prática por diversos agricultores. Mas  a Embrapa vem realizando a maior parte das pesquisas nesse setor. Sob o comando do pesquisador Lúcio André de Castro Jorge, estão sendo conduzidos estudos sobre o diagnóstico do HBL (Huanglongbing), conhecida como greening. A doença é responsável por destruir as citriculturas e, entre os anos de 2005 e 2015, a praga foi a causa da eliminação de 26,7 milhões de plantas, segundo os dados divulgados pela Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA).

Na cidade de Gavião Peixoto (SP), os pesquisadores testam ferramentas que auxiliam no combate ao greening. As ferramentas utilizadas para realizar a análise das imagens multiespectrais obtidas no campo de maneira georreferenciada permitem evidenciar mudanças não visíveis ocasionadas pela doença.

Outro exemplo do uso dos VANTs na prática está no setor de pulverização de produtos químicos como inseticidas, fungicidas e herbicidas. Com a ajuda dos drones, as pulverizações acontecem em focos de doenças nos cultivos, sem a necessidade de pulverização na área total, o que gera uma significativa economia de produtos.

Isso já vem acontecendo na cidade de Porto Alegre (RS), onde o Herbicida dessecante foi aplicado em campo para plantio direto de soja e arroz. Segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, o controle da vegetação foi rápido e uniforme. O drone aplicou em voo totalmente autônomo, com altura de três metros e faixas com cinco metros de largura, uma taxa de 10 litros de calda por hectare, em apenas 10 minutos.

O uso de drones, aliado às tecnologias já existentes, pode auxiliar em diversos aspectos da produção como Acompanhar o desenvolvimento da safra, demarcação de plantio e o mon
O uso de drones, aliado às tecnologias já existentes, pode auxiliar em diversos aspectos da produção como acompanhar o desenvolvimento da safra, demarcação de plantio e o monitoramento do desmatamento. Foto: Aressa Joel.

O cenário brasileiro e a atuação dos VANTs

Como toda tecnologia, a acessibilidade precisa ser discutida para que a aplicabilidade possa ser colocada em prática, uma vez que não adianta de nada termos tecnologia e pesquisadores, mas não termos quem faça uso dela. É preciso, então, que esse conhecimento chegue até o produtor rural. Para que isso aconteça, duas coisas precisam ser revistas: custos e conhecimento. Quer dizer, o bolso do agricultor consegue comportar essa tecnologia? E depois de adquiri-la, ele vai conseguir realizar seu manuseio de forma correta?

Atualmente o mercado brasileiro oferece VANTs com preços que variam entre R$ 4 mil e R$ 3 milhões. Todo o valor varia muito do modelo do drone e das câmeras a serem usadas. Mas, para adquirir um drone com peso superior a 250 gramas, é preciso registrar o equipamento na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e também homologá-lo na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) com o pagamento de uma taxa no valor de R$ 200. Além disso, o agricultor precisa utilizar os softwares adequados para a processamento das imagens. Um exemplo desse tipo de software, o Agisoft PhtoScan, custa cerca de R$ 13.500. É importante ressaltar que a Embrapa disponibiliza alguns softwares de forma gratuita em seu site, o que já é um incentivo para os agricultores brasileiros.

Depois de finalmente adquirir seu drone e os softwares necessários para os objetivos do agricultor, é hora de colocar a tecnologia em prática. O pesquisador da Embrapa, Lúcio André de Castro Jorge destaca as etapas que devem ser seguidas: planejamento de voo; voo com sobreposição; obtenção das imagens georreferenciadas; processamento das imagens; geração de Mosaico; análise em uma ferramenta; geração de relatórios.

Mas como o agricultor consegue entender e colocar tudo isso em prática? Primeiramente, existem diversas empresas que prestam esse tipo de consultoria como a Monagri Consultoria e a GeoDrones. Existem ainda diversos cursos realizados pela DroneShow Latin America e cursos gratuitos disponibilizados pela Embrapa no decorrer do ano.

O baixo custo do produto, aliado ao uso correto podem trazer diversos benefícios para o campo, mas uso de drones na agricultura de precisão ainda está longe de alcançar todo o seu potencial. Dada as dimensões e a diversidade de solos existentes no Brasil, é importante destacar as tecnologias disponíveis e em desenvolvimento para que elas consigam encontrar cada vez mais lugar na produção do Brasil. É dessa forma que qualidade, sustentabilidade e agilidade vão caracterizar cada vez mais o agronegócio brasileiro.

Anúncios

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s