Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo

Agricultura de Precisão: de que forma e para quem funciona a gestão do campo através da informação

Coleta de dados e georreferenciamento aumentam a produtividade e diminuem os custos

Danilo Mendes e Geovana Alves

O meio rural e a tecnologia estão raramente relacionados no imaginário coletivo, porém essa relação nunca esteve tão próxima. A Agricultura de Precisão é o melhor exemplo atual de como a tecnologia pode afetar diretamente o campo. Presente no Brasil desde os anos 90, a AP ganhou uma definição pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento(MAPA) em 2012, como “um sistema de gerenciamento agrícola baseada na variação espacial e temporal da unidade produtiva e visa ao aumento de retorno econômico, à sustentabilidade e à minimização do efeito ao ambiente”. Na prática, a Agricultura de Precisão consiste em coletar e analisar dados sobre os diferentes tipos de solo (condutividade elétrica, histórico de produtividade), localizando estes solos através do georreferenciamento para poder tomar as decisões mais adequadas em cada situação. Para Leandra Marcondes, graduanda em Engenharia Agrícola pela UNICAMP, a AP é especialmente benéfica porque “aumenta a produtividade da lavoura, gera informações acerca da área, auxilia na tomada de decisão acerca do processo de plantio e colheita e também ter o intuito de reduzir o uso de fertilizantes, insumos e defensivos agrícolas”. 

Augusto Sanches, graduando em Engenharia Agronômica pela USP,   acredita que um dos fatores que dificulta a adoção da AP é a falta de conhecimento de como funciona a coleta de dados, causando “o medo de que os seus dados, por serem processados por uma empresa terceira, possam ser disponibilizados para outras pessoas ou empresas”. No entanto, os dados processados são confidenciais e não podem ser compartilhados com terceiros. 

Augusto explica que quando o produtor pensa em modernizar o seu negócio ele “deve entender que em sua propriedade há uma grande variabilidade espacial seja do tipo de solo, fertilidade, uso e potencial de produção.” Quanto mais variadas as culturas e regiões, aumentam as chances de obter lucro e diminuir o impacto no meio ambiente. Leandra também lembra que o produtor deve considerar o custo com o monitoramento da área e com o maquinário, mas “o controle da lavoura e a expectativa de aumento de produtividades e lucratividade que ele terá com a aplicação dessas tecnologias” pesam a favor da AP. 

O Gestor Técnico de uma consultora em Agricultura de Precisão, André Salles, aponta que é possível ter um aumento de 50% da produção em  até 3 anos com a AP, “utilizando os mesmos produtos, tendo os mesmos custos e utilizando os mesmos equipamentos nas propriedades.”

Mercado Nacional e Internacional

Se comparado o Brasil a outros países produtores, Leandra, Augusto e André concordam que os produtores brasileiros são bem receptivos com as novas tecnologias e que o país tem grandes chances de avançar cada vez mais. Em relação aos custos de produção, André explica que o Brasil leva desvantagem se comparado a países como Estados Unidos e Argentina por ter um “solo pobre”, enquanto nestes países o uso de insumos como o calcário para correção do solo é desnecessário, “no Brasil, se o produtor não usar anualmente adubos ou corretivos a sua produção começa a cair consideravelmente.” Dados como os do MAPA de 2014, mostrando que foram utilizadas 3,76 milhões de toneladas de calcário no estado de São Paulo naquele ano, ou da ANDA(Associação Nacional para Difusão de Adubos) que de janeiro a junho deste ano foram entregues 20,5 bilhões de toneladas de fertilizantes para os produtores brasileiros, demonstram a quantidade de insumos utilizados e que podem ter um melhor aproveitamento através da Agricultura de Precisão. 

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Fonte: Danilo Mendes

Precisão para todos

Os pequenos produtores também têm seu espaço neste mercado através da terceirização do trabalho de análise ou com as ferramentas básicas de precisão, podendo, como observa Augusto, buscar outra maneira de agregar valor ao seu produto, “produzindo pequenas quantidades de alimento, mas com qualidade superior a aqueles produzidos em escala industrial, pelos grandes produtores”. Para os produtores que pretendem começar, existem diversos manuais disponibilizados pela Embrapa ou cursos realizados pelo SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). 

Do campo para os livros

Se na prática o tema é pouco abordado, na teoria o cenário é mais preocupante. Ao se pesquisar  os termos “agricultura” e “precisão” -sem nenhum refinamento de busca- no portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) surgem 2.017 produções -entre artigos, teses e livros-. 

Já ao buscar disciplinas que abordem AP na plataforma JupiterWeb, foram encontradas apenas dois resultados -ambos do curso de Engenharia de Biossistemas da USP-. Porém, se considerarmos os graduandos de Engenharia Agronômica e Engenharia Agrícola citados anteriormente, todos tiveram disciplinas que abordassem a temática.

No entanto, o campo ainda é considerado confuso para muitos e para se ter ideia, enquanto essa reportagem foi produzida, um estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas entrou em contato para questionar se o aplicativo que está produzindo -de informações e notificações climáticas com base na localização geográfica- poderia inserir-se no meio da Agricultura de Precisão.

A tecnologia por ela mesma

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Fonte: Geovana Alves

No que diz respeito aos negócios, a tecnologia não somente possibilita o acesso a informação, mas também a aproximação entre as empresas e os clientes, já que segundo o levantamento censitário, o número de empresários rurais e produtores que acessam a web saltou para 20.000 em 12 anos.

E aproveitando-se do momento, entra em cena o marketing digital no agronegócio, que a partir de técnicas de aproximação do público alvo ao empreendimento, promove um relacionamento interativo que demonstra preocupação com a opinião e bem estar do cliente, por meio de publicações de conscientização e debate.

As mídias sociais unem gerações diferentes e suas respectivas visões: a agricultura atingiu seu apogeu tecnológico em todos os âmbitos -o que não necessariamente prevê uma concordância- e a agricultura pode expandir as tecnologias de produção e divulgação -o que provavelmente prevê uma concordância-. 

Como pais e filhos

A mudança na administração das fazendas, de pais para filhos, é um dos fatores que viabilizam a modernização do campo. Os agricultores mais tradicionais tendem a ser mais passionais, e tem uma relação maior de confiança e fidelidade a uma marca. “Isso quer dizer que um produtor que iniciou sua carreira com máquinas da John Deere, por exemplo, sempre adotará os conceitos, as tecnologias, as inovações da John Deere por mais que outras marcas lhe apresentem soluções melhores” analisa Augusto. Para Leandra, a queda do êxodo rural na década passada, com demonstra o censo demográfico de 2010 do IBGE, é um dos indícios de que os jovens deixaram de ir para a cidade e permaneceram no campo para ajudar seus pais e, junto ao acesso mais fácil as universidades e cursos técnicos, eles obtêm os conhecimentos necessários para impulsionar a modernização no campo. “Investimentos em estrutura acadêmica, em desenvolvimento de novas tecnologias, criação de mais cursos (faculdades e colégios técnicos), para que haja o conhecimento dessas tecnologias” conclui a estudante de engenharia. 

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