Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo

Colaborar para o futuro: cooperativismo tem potencial para aprimorar agronegócio

Sistema representa 11% do PIB agropecuário do país, mas falta de políticas públicas e desconhecimento da população inibem seu crescimento

Camila Nishimoto e Jéssica Dourado

Elaine Casap
No Brasil, cerca de 51,6 milhões de pessoas são beneficiadas direta ou indiretamente pelo cooperativismo. Foto: Elaine Casap/StockSnap.io

Pesquisas da revista Expressão do Cooperativismo Gaúcho 2017 mostram que hoje o sistema de cooperativas é a principal fonte de renda de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. O estudo ainda mostra que este sistema emprega 20% mais pessoas do que as multinacionais e que, em todo o globo, 1 em cada 7 pessoas está associada a uma cooperativa.

Em outros países, o cooperativismo tem números expressivos. Segundo a plataforma Geração Cooperação, 60% das residências privadas foram construídas por cooperativas e 90% do queijo parmesão italiano é produzido através delas, assim como 80% do azeite de oliva espanhol. E há ainda países que deixam o cooperativismo como legado, como na Malásia, onde todas as escolas públicas são obrigadas por lei a constituírem cooperativas para administração de recursos.

No Brasil, cerca de 51,6 milhões de pessoas são beneficiadas direta ou indiretamente pelo cooperativismo. A pesquisa da revista Expressão do Cooperativismo Gaúcho 2017 aponta que em 564 municípios brasileiros as cooperativas de crédito são as únicas instituições financeiras locais.

Em âmbito nacional, 807 municípios são atendidos por cooperativas de eletrificação. Os números ainda mostram que 38% dos brasileiros com assistência médica são atendidos por cooperativas de saúde e que as cooperativas de táxi transportam cerca de 2 bilhões de passageiros por ano. Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), mais de 350 mil empregos são gerados pelas cooperativas no país.

No setor do agronegócio, os números são ainda mais significativos. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2015, de tudo o que é produzido nos campos brasileiros, 48% passa por cooperativas em algum momento.

José Luiz Tejon, autor de diversos livros sobre agrobusiness e coordenador acadêmico de pós graduação e do Núcleo de Agronegócio da ESPM/SP, afirma que o cooperativismo é a maior empresa do país. Quando reunidas, incluindo as urbanas e as de crédito, chegam a cerca de R$ 400 bilhões em faturamento. “Elas precisam aumentar a intercooperação, a construção cooperada de marcas para o mercado consumidor e criar uma inteligência de comunicação que amplie sua percepção positiva sobre a realidade de toda a sociedade”, completa o especialista.

Em relação ao cenário mundial, José Luiz faz uma previsão: “não haverá futuro sem o cooperativismo”. Ele lembra que a população mundial atingirá 20 bilhões de pessoas em torno de 2050 e isso, segundo o especialista em agronegócio, faz com que somente o empreendedorismo consiga viabilizar uma sociedade organizada e ascensional, o que exigirá leis e organização das cooperativas.

Paraná é referência, mas cooperativismo no país ainda engatinha

Referência de desenvolvimento e sucesso no cenário cooperativista brasileiro, as cooperativas do Paraná faturaram R$ 70 bilhões em 2016. O Sistema OCEPAR (Organização das Cooperativas do Paraná) é responsável por coordenar as 221 cooperativas responsáveis por esse montante, presentes em dez ramos de atuação.

A expectativa do Sistema para o ano de 2020 é o valor de R$ 100 bilhões em faturamento. Para atingir essa meta em menos de 5 anos, a OCEPAR produziu o PRC 100 (Paraná Cooperativo 100): planejamento com estratégias que conciliam os 5 diferentes pilares de gestão, infraestrutura, governança, cooperação, financeiro e mercado.

Essa previsão de aumento de R$ 30 bilhões em receita para as cooperativas filiadas à OCEPAR é um dos reflexos do crescente interesse do Brasil em investir mais no cooperativismo, que já é responsável por movimentar uma parte significativa da economia nacional, em especial no setor agropecuário.

Ainda assim, o país não tem posição de destaque internacional. Em estudo divulgado na conferência Rio+20, em 2012, o Brasil ocupava uma das piores colocações dentre 94 países analisados. Apenas 5% da população brasileira estava ligada a alguma cooperativa. Quando comparado ao Uruguai (30%), país mais bem ranqueado da América Latina, a diferença é de 25%.

Levi Morsy
Segundo Censo Agropecuário do IBGE de 2015, 11% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário é gerado por elas. Foto: Levi Morsy/StockSnap.io

Em entrevista à revista Easy Coop, Júlio Aurélio Vianna Lopes, cientista social e autor da pesquisa, afirmou que a obsolescência da lei brasileira que concerne cooperativas é a grande responsável por tão baixa porcentagem. “O que mais prejudica o cooperativismo brasileiro é a falta de políticas públicas adequadas. O decreto da ditadura em 1971 serviu apenas para controlar e não disseminar cooperativas”, afirma ele.

Júlio ainda acredita que raízes culturais de falta de confiança e baixa solidariedade agem como obstáculo entre o brasileiro e o interesse em fazer parte de ou criar cooperativas. Para ele, existe um “mito de que o brasileiro é cooperativo e solidário. [Cooperação] ainda não é uma característica relevante na cultura brasileira. As pesquisas de opinião feitas por um órgão especializado (Latinobarômetro) mostram que o brasileiro, dentre os latino-americanos, é o que desconfia mais”, atesta ele.

O cenário, entretanto, está caminhando para a mudança. No agronegócio, o cooperativismo desempenha papel fundamental. A Organização das Cooperativas Brasileiras tem contabilizadas 6,6 mil cooperativas registradas no Brasil e, segundo Censo Agropecuário do IBGE de 2015, 11% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário é gerado por elas.

Mas como funcionam as cooperativas?

Por mais que tenham cada vez mais importância no cenário econômico do país, as cooperativas ainda são vistas com desconhecimento por grande parte dos brasileiros. Valorizando a colaboração e não a competição, o cooperativismo é um sistema econômico com diferenças do tradicional modelo empresarial e tem potencial para trazer benefícios ao agronegócio brasileiro.

Num sistema cooperativista, todos os associados são considerados donos. Cada pessoa tem um voto, independentemente do capital. A existência de um único dono ou de acionistas não existe neste modelo econômico.

O principal objetivo das cooperativas é a prestação de serviços, contando com um número ilimitado de membros para desenvolver atividades que estejam de acordo com os 7 princípios do cooperativismo, valorizando o humano e a prática de um comércio justo e colaborativo.

Administradas por uma diretoria ou conselho, cujos membros são eleitos em assembleia geral por até 4 anos, as cooperativas também podem contratar consultores e profissionais para auxiliar na gestão, ainda que a mesma nunca saia das mãos dos associados.

Um dos diferenciais oferecidos pelas cooperativas quando comparadas às empresas privadas é o retorno dos excedentes ou sobras. Visando a participação dos cooperados nos resultados financeiros, todos os anos as cooperativas devolvem parte do que foi obtido a cada um dos associados, de forma proporcional ao valor agregado por cada um nos últimos 12 meses.

Confira a seguir um infográfico comparativo com as principais diferenças entre uma cooperativa e uma empresa privada.

cooperativa versus empresa (1)

Para José Luiz Tejon, especialista e coordenador acadêmico de pós graduação e do Núcleo de Agronegócio da ESPM/SP, o grande benefício em adotar o cooperativismo encontra-se na sua filosofia e forma de funcionamento. “A imensa vantagem está em sua filosofia de condução de todos os seus agentes com educação e num projeto de participação nos resultados do empreendimento. Elas ainda significam comprometimento com toda a sociedade do seu entorno”, discorre ele.

A tomada de decisões em uma cooperativa ocorre sempre em assembleias gerais. Nelas, o quorum, que é a quantidade mínima obrigatória de membros presentes para que se possa deliberar e tomar decisões válidas, é sempre baseado no número de cooperados. Esse sistema implica algumas dificuldades, como “a velocidade com a qual se pode tomar decisões, já que suas deliberações sempre precisam considerar a condução reunida e unida do corpo de cooperados”, segundo José Luiz.

Por estar sempre baseada na integridade de todos os membros associados, o bom funcionamento das cooperativas depende de sua honestidade mútua e ininterrupta. E este é o segredo de uma cooperativa bem sucedida para José Luiz Tejon. “Para dar certo precisa de uma liderança íntegra, transparente e que jamais abandone os fundamentos cooperativistas. E isso significa colocar sempre a cooperativa acima de qualquer interesse”, afirma ele.

Cooperativas e os desafios do agronegócio

Ainda que represente quase 23% do PIB brasileiro, segundo a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil, o agronegócio ainda enfrenta desafios. Muitos deles se concentram na logística e infraestrutura do transporte, armazenamento e tributação dos produtos. O país produz muito e tem clima para plantar e colher em quase todas as épocas do ano, mas seu transporte e escoamento não acompanham sua produção, o que desvaloriza os produtos e gera desperdício.

Além dessas problemáticas já conhecidas, há preocupação com a utilização da água, mudanças climáticas, emissões, mão-de-obra no campo, nutrição e saúde, segurança biológica, energia, preocupação social e turismo rural. Hoje, quem trabalha com agronegócio ainda carrega a preocupação com as questões do setor em relação a outros países.

O advogado especializado em agronegócio, Fernando Tardioli, em artigo para a revista Safra, ressalta que uma grande preocupação atual está ligada aos Estados Unidos. “Com Donald Trump assumindo a Casa Branca, novas regras protecionistas ao agronegócio americano podem ser adotadas, prejudicando as exportações para aquele país – mas, por outro lado, criando a necessidade de abertura brasileira de novos negócios” afirma ele.

Mas onde encaixar o cooperativismo nisso tudo? Alguns dos problemas listados só poderiam ser resolvidos com facilidade através da intervenção do Estado. Sem a ajuda do setor público, a tarefa de resolver grande parte dessas questões fica a cargo da iniciativa privada. Por maiores que sejam as empresas, é impossível que encontrem soluções para todos esses desafios. Aí entra o cooperativismo.

Apenas uma empresa, mesmo sendo grande e lucrativa, não é capaz de dar conta de todos os problemas no setor agropecuário. Por isso, muitas nem se esforçam em buscar formas de saná-los. Nesse ponto, o sistema cooperativista apresenta seus benefícios.

Nele não é apenas uma empresa, um proprietário ou um pequeno grupo de pessoas pensando e agindo para resolver problemas. São vários grupos, pessoas, diferentes visões e mão-de-obra. Com o cooperativismo e muitos trabalhando juntos, aumenta-se a praticidade e a rapidez na resolução de problemas, como o escoamento e o armazenamento de produtos.

José Luiz Tejon afirma que “as cooperativas já são as maiores do agro”. Dessa forma, o cooperativismo se faz importante não apenas para resolver problemas, mas também para formar pessoas com mais consciência e espírito coletivo. José Luiz ressalta que “cabe ao cooperativismo atuar, educar e persuadir a grande maioria dos seus agentes a não abandonarem a luta pelo conhecimento e sua aplicação no campo”.

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