Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo

As 1001 utilidades daquilo que a terra dá

Matérias-primas são utilizadas na fabricação dos mais variados produtos, mas desperdício ainda é problema a ser superado

José Felipe Vaz e Nathane Agostini

Um produto, várias utilidades. Essas são as chamadas matérias-primas, que podem ser naturais, substanciais ou até mesmo materiais e são a base da fabricação de um produto qualquer. A maioria das mercadorias que consumimos provém de matérias-primas. No âmbito econômico, as matérias-primas são importantes uma vez que a sua variação de preço pode desencadear em aumento ou queda de preços em toda a cadeia produtiva subsequente.

As matérias-primas podem ser classificadas de acordo com a sua origem, sendo uma dessas derivações de aspecto vegetal, ou seja, as mercadorias que servem de base para a produção de outros produtos e são provenientes da flora como um todo, originadas principalmente do cultivo de produtos.

Um exemplo é a mandioca, uma das matérias-primas produzidas no Brasil. Só em julho deste ano, segundo o IBGE, foram produzidas 20.145.375 toneladas de mandioca. O produto pode ser utilizado na fabricação das mais variadas mercadorias, como goma para tecidos e produtos cosméticos, além dos gêneros alimentícios, como farinha, polvilho azedo e a típica tapioca.

Um estudo publicado na revista Cadernos de Prospecção, sobre o uso dos componentes da mandioca nas ciências médicas mostra que o produto é bastante utilizado na área química, ligada a cosméticos e medicamentos. Entre os anos de 1962 e 2012, foram patenteados 627 produtos nesta área, tendo como predominância as empresas onde “a aplicação dos subprodutos da mandioca vai desde a composição de creme e xampus a produtos odontológicos para a limpeza de dentes e medicamentos”.

Outro uso de um componente da mandioca se dá nas fábricas de tecido. Isso porque seu amido, chamado de fécula de mandioca, é utilizado na engomagem dos fios dos tecidos. A goma é importante por dar resistência ao produto e, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, a fécula de mandioca é uma das “bases naturais mais utilizadas no mundo para a engomagem de fios devido ao seu baixo custo”.

Outra importante matéria-prima fabricada no Brasil, com 5.672.293 toneladas produzidas apenas em julho, o trigo é caracterizado pela sua versatilidade por servir de matéria prima para vários produtos. Na composição do grão, o farelo – a parte externa – é principalmente utilizado para fabricação de rações animais. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Zootecnia diz que “devido aos altos preços do milho principalmente na entressafra, o trigo passou a ser alternativa ao milho na alimentação animal”. O estudo também afirma que o trigo é utilizado como principal fonte de energia das aves e suínos em muitos países.

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O trigo, além de importante fonte de energia, também pode ser usado para produção de ração e cosméticos. Créditos: José Felipe Vaz

A parte interna do grão, onde fica localizado o gérmen, é utilizada principalmente na produção de cosméticos. Uma avaliação realizada por uma pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) sobre a eficácia de cosméticos que contém extratos de trigo e soja mostra que o extrato de trigo é rico em proteínas e sua utilização nas produções cosméticas é justificada pela formação de uma camada sobre a pele que promove a proteção contra a desidratação além da diminuição das rugas. A análise obteve como resultados a eficácia dos extratos do trigo na proteção e diminuição dos sinais na pele, enquanto na utilização do extrato da soja, não foi possível observar o mesmo comportamento.

Entre a parte externa e a parte interna, existe a parte intermediária, chamada de endosperma. Dessa parte do grão é retirada a matéria-prima da farinha sendo também fonte de amido. O processo para obtenção do endosperma, é primeiramente a separação entre o gérmen (parte interna) e o farelo (parte externa). Após a separação, é realizada a moagem das partículas do endosperma de onde é retirada a farinha.

A cana-de-açúcar, cuja estimativa de produção da safra de 2017/2018, realizada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é de 646,34 milhões de toneladas, é outra matéria-prima utilizada para diversos fins.

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Safra da cana-de-açúcar de 2017/2018 deve atingir 646,34 milhões de toneladas. Créditos: José Felipe Vaz

Ao ser moída, a cana oferece a garapa, que já pode ser ingerida. O caldo da cana, se fervido, origina o açúcar, se fermentado, produz o etanol. O bagaço restante da moagem é comumente queimado pelas usinas para a produção de energia, mas em alguns casos é utilizado na produção de biocombustível, o chamado etanol de 2ª geração.

A cana-de-açúcar picada, aliada a aditivos como ureia, óxido de cálcio e benzoato de sódio, é utilizada na alimentação de animais bovinos. Já a palha proveniente do plantio da cana tem sido utilizada, em um processo inovador no mundo, pela FibraResist – uma indústria de Lençóis Paulistas, interior do estado de São Paulo – na extração de pasta celulósica para a produção de papel.

O alimento que fica pelo caminho

Anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos é perdida ou desperdiçada no mundo. Essa quantidade é equivalente a cerca de um terço de todos os alimentos produzidos para consumo humano. Segundo cálculo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) divulgado em 2013, a perda totaliza 750 bilhões de dólares anuais.

Só no Brasil, o desperdício chega a cerca de 41 mil toneladas de alimentos por ano, segundo informações da gerente de clima da World Resources Institute (WRI) Brasil – instituição internacional que promove pesquisa sobre caminhos inovadores para um planeta sustentável e atua no país desde 2006 -, Viviane Romeiro, que já trabalhou com projetos sobre clima para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTi).

Segundo o relatório da FAO, 54% das perdas de alimentos no mundo ocorre após a colheita e na armazenagem – fase inicial da produção -, enquanto 46% ocorrem no processamento, distribuição e consumo.

O Brasil, no entanto, reúne características de desperdício de países ricos – caracterizado pelo descarte de alimentos no final da cadeia, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – tanto quanto de países em desenvolvimento, onde a perda maior ocorre dentro das propriedades rurais e no escoamento da produção.

O maior desperdício na produção brasileira ocorre durante o manuseio e transporte, totalizando 50% de toda perda, segundo informações da campanha ONU Verde, lançada pelas Nações Unidas em outubro de 2009. Ainda assim, as taxas de desperdício são tão alarmantes na fase pós-colheita, quanto no final da cadeia.

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Devido a falta de estrutura adequada para o tamanho da safra, o Brasil apresenta grande dificuldade no escoamento de sua produção. Isso porque o transporte é realizado predominantemente pelas rodovias em todo o território nacional, enquanto as ferrovias e hidrovias são pouco distribuídas e exploradas, conforme aponta o mapa da Logística dos Transportes de 2014, desenvolvimento pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A falta de asfaltamento ou duplicação das estradas estão entre os problemas que desaceleram o transporte. Quando a carga chega aos portos ou terminais, pode enfrentar ainda filas para o descarregamento, como era o caso das estradas da Baixada Santista, no estado de São Paulo, que em 2013 ficaram congestionadas devido ao grande número de caminhões que aguardava para escoar a safra que estava acima da capacidade do Porto de Santos.

Por isso, empresas do setor e o governo investem em reestruturação dos portos e terminais para agilizar o escoamento. Um exemplo de sucesso é o terminal de Araguari (MG), onde os caminhões chegavam a esperar por até três dias para serem descarregados antes de uma reforma realizada no local. “Hoje um caminhão que chega em Araguari e vai ser direcionado para um terminal integrador, tem o ciclo de chegar no entreposto, descarregar e ir embora em torno de cinco horas”, explica Fabiano Lorenzi, Diretor Comercial da Valor Logística Integrada (VLI), em entrevista ao programa Direto ao Ponto do Canal Rural.

O desperdício de alimento atinge ainda uma questão moral, já que é um obstáculo  para “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”, segundo os dezessete objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

No Brasil, segundo informações da Embrapa, embora o país tenha saído do mapa da fome da FAO, 22,6% da população ainda enfrenta algum estágio de insegurança alimentar, e o volume de alimentos desperdiçados é maior do que o necessário para neutralizar esse problema.

No cenário mundial, a gravidade da questão da perda de alimentos se torna ainda mais evidente, visto que apenas um quarto dos desperdícios dos Estados Unidos e da Europa juntos seria suficiente para alimentar as 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo, conforme analisa a Embrapa.

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