Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo

Produção orgânica: os caminhos e as dificuldades de uma alimentação mais saudável

Cerca de 80% dos 1,8 milhões de produtores orgânicos estão localizados em países em desenvolvimento, indica pesquisa realizada pela Organic Monitor 

Danilo Mendes e Geovana Alves 

No primeiro olhar é possível perceber que não se trata de algo convencional e que o preço é mais alto. Em seguida, as mãos sentem que talvez seja um pouco menor. Na primeira mordida a boca sente aquele frescor desconhecido e natural. E surge a dúvida: por que não experimentei antes esse tal de orgânico?

No primeiro semestre de 2017, o Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (ORGANIS) realizou a primeira pesquisa nacional para identificar o perfil do consumidor brasileiro de orgânicos. Segundo o resultado, apenas 15% dos brasileiros consomem alimentos orgânicos. E é na região Sudeste que os números são menos expressivos: um em cada 10 habitantes aderem a estes produtos.

A pesquisa também indicou que a maior parte dos compradores associa produtos orgânicos à ausência de agrotóxicos e desconhece a regulamentação vigente que exige o selo de certificação orgânica. Inclusive, apenas 8% dos brasileiros utiliza o certificado do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) como verificador de credibilidade. 

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Selo de Certificação Orgânica do MAPA. Fonte: MAPA

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), foi em meados de 1920 que o termo “agricultura orgânica” apareceu pela primeira vez. Naquela época, iniciaram-se movimentos e manifestações em prol de práticas de culturas baseadas nos processos biológicos naturais que originaram quatro vertentes: a agricultura orgânica, a biodinâmica, a biológica e a natural.

Sendo um movimento recente, é de se esperar que o consumidor ainda tenha dúvidas sobre o assunto. A conscientização, no entanto, segue a maior aliada – ao menos para aprimorar o discurso daqueles que comem orgânicos apenas porque ouvem dizer que são saudáveis.

Do campo para a cidade

Da lavoura à mesa, há um longo caminho. É necessário conhecimento sobre o clima, o solo, o local de plantio e as espécies para começar a viabilizar o projeto. No estado de São Paulo, por exemplo, há pelo menos três climas predominantes, além de mais de 20 tipos de solos.

Outro ponto é a substituição de técnicas nocivas ao ambiente por fertilizantes naturais, como adubação por meio de leguminosas fixadoras de nitrogênio, adubo orgânico proveniente de compostagem, minhocultura, manejo de vegetação nativa e rotatividade de culturas.

Os motivos para que o produtor opte pela agricultura orgânica são diversos. Muitos buscam essa alternativa após a intoxicação no manejo de agrotóxicos, como foi o caso de Ana Claudia da Silva que cultiva de maneira orgânica desde o incidente.

Ana Claudia conta que o processo de certificação foi burocrático e demorou mais de um ano e meio até que a família conseguisse o selo do MAPA. Além disso, o trabalho tornou-se mais exigente, sendo necessário que seis pessoas trabalhassem na horta, fazendo de tudo um pouco.

Ela lamenta que, apesar de tanto esforço, nem sempre há recompensa. “Nós começamos entregando os produtos nas escolas da cidade vizinha, porque a maioria das pessoas não compra na feira por ser mais caro”.

Além do processo ser mais caro e demorado, é comum os agricultores relatarem que os alimentos mais feios acabam afastando o consumidor. A produtora Fabiana Silva reforça essa tese. “Os clientes querem o produto perfeito, não compensa produzir se o consumidor não se conscientizar que não vai encontrar o produto perfeito” 

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Feira livre de Bauru – São Paulo. Fonte: Geovana Alves

Todo dia é dia de feira!

Para incentivar a agricultura regional, diversas prefeituras do estado de São Paulo têm realizado feiras livres que reúnem os agricultores convencionais e orgânicos. Na cidade de Bauru, por exemplo, elas ocorrem todos os dias da semana em em diferentes regiões e horários.

Ao conversar com as pessoas nas feiras, é perceptível o grande número que acredita que todos produtos dali não possuem agrotóxicos.

Essa lógica resulta em um dilema para o agricultor, pois o cliente busca preço baixo sem se esquecer da beleza, o que acaba inviabilizando os orgânicos. No entanto, Fabiana menciona que há pessoas conscientes que se importam menos com isso, “Na verdade, há quem procure sempre o mais feio, sem se importar com o preço”, ironiza.

Outra consequência disso é o desperdício. Estima-se que o Brasil joga 41 toneladas de alimentos por ano no lixo, enquanto 3% da população brasileira vive em vulnerabilidade alimentar, conforme relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Na tentativa de contornar essa situação, há projetos que incentivam a doação desses alimentos para entidades carentes, tal qual o Banco Ceagesp de Alimentos (BCA), que atende um total de 29 mil pessoas carentes por mês, por conta das doações.

Os orgânicos na balança

Dessa forma, não é porque um alimento é considerado feio que ele está impróprio para o consumo, muito pelo contrário. A nutricionista Naiara Alves explica que além de mais saborosos, os alimentos orgânicos são mais saudáveis e mais ricos em alguns nutrientes.

No que diz respeito ao sabor, o motivo está no tempo de amadurecimento, uma vez que pelos métodos convencionais há uma aceleração, enquanto pelos orgânicos há um processo natural. Já sobre a questão nutricional, Naiara indica a ausência de agrotóxicos como principal fator.

Além da gama de frutas, verduras e legumes orgânicos, há também o mercado de carnes orgânicas que segue a mesma ideia de uma produção mais natural, isenta de produtos químicos e com preocupação socioambiental. No Brasil, somente uma indústria tem comercializado carne orgânica certificada que pode ser encontrada nas capitais dos estados e em grandes redes de varejo.

A ausência de opções orgânicas nos supermercados é o principal motivo dado por pessoas que os consomem pouco. Buscando driblar essa situação, empresários e produtores têm investido em estabelecimentos que oferecem todos os tipos de orgânicos em um só lugar, além de oferecer o serviço de entrega em domicílio.

Para o estudante Lucas Gaviolla, comprar diretamente com o produtor oferece uma confiança a mais e possibilita o conforto de receber diretamente em casa. Ele ainda conta que utiliza esses serviço de entrega há dois anos e que antes consumia apenas os produtos do supermercado. 

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Alguns produtos orgânicos da Feira Livre de Bauru – São Paulo. Fonte: Felipe Silva

Horta terapêutica

Já a estudante Bianca Jiacometi decidiu fazer uma horta comunitária na moradia estudantil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), pois para ela o cultivo vai além de uma boa alimentação. “Eu preciso sempre estar em contato com a terra, faz bem para o meu psicológico”.

Mas Bianca não é a única a buscar a horticultura como terapia. O Projeto Sementes do Instituto Federal Catarinense (IF), em parceria com o Centro de Atenção Psicossocial (Caps I), pesquisa os efeitos da horta terapêutica em deficientes intelectuais. Em entrevista ao Jornal Folha, a terapeuta ocupacional do Caps, Luana Henrique, relata que a atividade incentiva que o paciente expresse-se e veja seu próprio potencial.

Há também aqueles que nasceram no campo e não tiram os pés da terra mesmo após se mudarem, porque não conseguem ficar parados e sentem-se inúteis se não estão cultivando. Então, muito deles retomam as atividades por meio de hortas para consumo próprio ou até mesmo para comercializar com os vizinhos.

E seja porque o vizinho ofereceu uma couve do canteiro dele, ou talvez seja porque abriu uma nova loja só de orgânicos na esquina, ou até mesmo seja porque o produtor oferte entregar em casa: permita-se experimentar o que os alimentos tem a oferecer naturalmente.

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