Jornalismo, Prêmio ABAG/RP de Jornalismo

Não só de grandes propriedades vive o agronegócio brasileiro

Os diversos tipos de propriedades produtoras estruturam o setor que faz o Brasil despontar mundialmente

Aressa Muniz e Luis Negrelli

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A agricultura familiar é a responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no território brasileiro, de acordo com matéria publicada no Portal Brasil em 2015. Foto: Agência Brasília

Em uma palestra a respeito do agronegócio o dono de uma grande fazenda estava presente. Sua propriedade incluía plantações de cana, café, soja e trigo, mas seu principal negócio era a soja. Ele disse que o produto era o mais rentável e que exportava a maior parte para a China. No momento em que tomou a palavra para falar de sua produção, uma pessoa da plateia aproveitou e fez uma pergunta sobre agricultura familiar, mais precisamente sobre os investimentos nesse ramo.

A resposta do proprietário foi a seguinte: “não tem como plantar soja em propriedade pequena. O que você investe para plantar em 50 hectares é o mesmo que você precisa investir para 500. Então o negócio não faz sentido”.

A resposta foi curta, seguindo aquilo que o próprio agricultor sabia sobre seu negócio. Mas esse exemplo não deixa de ilustrar um pouco sobre a questão do agronegócio brasileiro. Somente os grandes produtores rurais, como o proprietário da fazenda de soja, é que movimentam a economia? E nas propriedades pequenas, vale a pena investir? Os dois lados brigam pelo mesmo espaço ou buscam cada um o seu espaço? Vamos entender melhor essa situação.

Os caminhos do agronegócio: da terra à sua casa

Milton Santos, geógrafo brasileiro, chama o agronegócio de agricultura científica globalizada. Mas vamos por partes. Por que “científica”? É através da ciência, unida à técnica e à informação, que acontecem pesquisas científicas, por exemplo, do solo, da semente, com a finalidade de aprimorar a produção e aumentar as quantidades produzidas em relação às superfícies plantadas. Mas por que tantos produtos? É ai que entra a parte do “globalizada”. A enorme quantidade de produtos servem para atender uma grande demanda do país e para exportação.

O começo de tudo são os investimentos do próprio produtor de acordo com suas expectativas e condições ou de bancos que fornecem créditos aos agricultores para que eles consigam investir em máquinas e insumos agrícolas. Nesse ponto, entram as indústrias. Elas produzem as sementes selecionadas para plantio, os herbicidas, inseticidas, fertilizantes, rações para animais, máquinas para irrigação, para plantio, para colheita, entre outros produtos importantes.

E então, a agropecuária, munida de tudo que precisa, começa com a plantação e a criação de animais. É nessa etapa que resultam os produtos primários, como por exemplo os grãos e o leite.

Essa é apenas uma parte do processo, porque os produtos primários ainda serão utilizados por agroindústrias que farão o processamento de toda a matéria-prima. Dessa forma, são criados os subprodutos que podem ser usados na indústria alimentícia, como, por exemplo, laticínios, no mercado de vestimenta, como o couro, na indústria de energia, como os biocombustíveis, entre outros.

Como está a produção no agronegócio brasileiro?

Para se ter uma ideia a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgou em 2016 um balanço do agronegócio no ano e as perspectivas para 2017 e destacou: o agronegócio deverá ampliar a participação na economia para aproximadamente 23% do total do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

E não é só a CNA que traz dados otimistas. Em matéria no site da Revista Globo Rural, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Fábio Kanczuk, também colocou a agropecuária como a maior responsável pelo crescimento na economia brasileira no primeiro trimestre. Sabe por que? Segundo ele, no primeiro trimestre de 2017 o PIB brasileiro cresceu 1% na comparação com o último trimestre do ano anterior e, desse total, 0,8% veio somente do agronegócio.

O relatório Perspectivas Agrícolas 2015-2024, divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aponta o Brasil como o maior exportador de alimentos da próxima década. E isso não é a toa. Entre agricultura familiar e de exportação o Brasil tem potencial para aumentar ainda mais sua produção agropecuária.

A estrutura por trás do agronegócio

São três os tipos de propriedades produtoras voltadas ao mercado do agronegócio no território brasileiro: agricultura familiar, médio produtor e produtor empresarial. Essa distinção é realizada a partir dos módulos fiscais, conceito introduzido pela Lei nº 6.746/79. O módulo fiscal é uma unidade de medida de área (em hectares) definida pelo poder municipal e corresponde à área mínima necessária a uma propriedade rural para que a produção seja economicamente viável.

Na agricultura familiar ou pequena propriedade, a unidade não pode ter mais de quatro módulos fiscais. Entre quatro e quinze módulos fiscais, a propriedade é considerada média produtora. Já quando possui mais de 15 módulos fiscais trata-se de uma grande propriedade.

Considerando os dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), as propriedades familiares representam 90,6% das unidades de produção agropecuária no país, os médios produtores 7,1% e aqueles categorizados como grandes produtores 2,3%. Se analisarmos com relação ao total de área, inverte-se a classificação: os grandes produtores  representam 47,7%, os agricultores familiares 28,95% e os médios produtores 23,35%.

Um terreno de disputas?

Nós conversamos com a Professora Marly Teresinha Pereira da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a ESALQ, da Universidade de São Paulo (USP), para entendermos melhor essa estrutura de produção e ela afirmou o seguinte: “agronegócio, agricultura empresarial e agricultura familiar tratam-se de conceitos complexos, ideologicamente fortes e, portanto, construídos e interpretados em diferentes formas, muitas vezes distorcidos por visões equivocadas ou preconceituosas sobre seu sentido, seja econômico ou social”.

Para a professora, há casos em que o agricultor familiar é considerado mero produtor de subsistência, enquanto que os grandes produtores são chamados de latifundiários. “São conceitos imprecisos ou ultrapassados que levam a uma série de transtornos nas discussões e na busca de soluções para o desenvolvimento do país”, explica.

Analisando esses dois lados, grandes e pequenos produtores, vemos que existem algumas conclusões precipitadas que grande parte da população acaba tomando. A primeira delas diz respeito às grandes propriedades produtoras. Elas são encaradas por muitas pessoas como o motor do agronegócio e as responsáveis por fazer a economia se movimentar. Até aí tudo bem. Mas o problema está em pensar que esse modelo é o único e mais importante. O agronegócio brasileiro é múltiplo, diversificado, plural.

Outro senso comum que existe nos leva a pensar na agricultura familiar como algo simples que envolve apenas chapéu de palha, plantio, colheita e consumo. No entanto, a produção da agricultura familiar oferece também matéria prima para indústrias e distribui alimentos embalados diretamente ao consumidor final. Colocando em outras palavras, a agricultura familiar também movimenta sim a economia.

Na visão da especialista, é importante que se tenha em mente que o agronegócio não é um lugar de disputa. Enquanto a agricultura familiar desempenha um papel importante na economia das pequenas cidades, gerando empregos e alimento para a população, as grandes propriedades produtoras estão investindo cada vez mais em tecnologia e técnicas agrícolas voltadas para exportação.

E toda essa produção é influenciada pela máxima industrial: a produtividade. Tanto a agricultura familiar, quanto as grandes propriedades agropecuárias de produção estão trabalhando para atingir esse objetivo e do outro lado está o consumo, ou seja, nós, seres humanos. Junto com outros setores que o agronegócio agrega esse caminho da fazenda até a nossa casa é longo, mas demonstra como o agronegócio é importante, não só de forma direta na vida humana, como também de forma econômica.

“O agronegócio é um sistema interligado de produção, processamento e comercialização de bens de origem agrícola, promovido pela agricultura familiar ou pequeno produtor, médio produtor rural e o grande produtor. Cada um com perfis de produção e comercialização, que se complementam e que contribuem para o desenvolvimento brasileiro”, completa a professora. E, por isso mesmo, se faz necessário que o estado apoie os dois lados para que eles se desenvolvam de forma igualitária, assegurando um futuro estável para o agronegócio do país.

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