Comunicação, Crônica, Tecnologia

Crônica: Telegram

por Daniel Sakimoto

Com muito esforço eu abro os olhos, em vão pois não há nada para enxergar de janela fechada. Apesar do confortável calor, eu sei que vou sentir frio quando sair da cama, assim como sei que apesar da escuridão no quarto, o sol já raia há algumas horas. Antes de sentir o frio e o sol, desbloqueio o celular para checar facebook e afins, verificar mensagens e etc. Só pelo costume mesmo.

“Justiça determina bloqueio do WhatsApp no Brasil por 72 horas” – as primeiras palavras que leio ao rolar a timeline para baixo. Mais uma vez ficaremos sem o serviço por decisão de um juiz. Abro a calculadora, 72 horas são três dias, se o bloqueio vai acontecer as 14h00, eu devo ficar sem o aplicativo até a mesma hora da quinta feira – eu realmente não precisava de calculadora, eu nem digitei nada.

As ditas 14 horas chegam e logo achamos alternativas para o WhatsApp: Telegram, Messenger, Falar Pessoalmente – “opa! a que ponto chegamos ein”, pensamos em brincadeira – virtual e presencial são formas tão distintas de diálogo e comunicação, tão banalmente usadas de forma igual, o presencial ocupa o virtual e vice-versa.

Apesar de serem objetivamente formas de se comunicar, elas acontecem de formas bem diferentes quanto à linguagem utilizada e também (por que não?) quanto ao significado atribuído.

Perdemos muitos aspectos espontâneos, das pessoas e da própria conversa, quando escolhemos trocar uma conversa que aconteceria pessoalmente por um chat no celular. Um gesto com as mãos, uma expressão de dúvida, uma pausa entre as palavras, todas essas coisas que poderiam dizer muito, são perdidas e trocadas por memes e emoticons. Atribuímos então novos significados para as novas interações sociais que ganhamos. O que significa um emoticon ou uma carinha como essa :3 ? Um like ou mesmo o ato de comentar uma publicação, o que pode dizer?

Criamos relações tão singulares virtualmente, que algumas só existem pela internet – tem pessoas que se conheceram pela rede e tem pessoas que só se falam se for virtualmente, talvez pela timidez e medo do “aqui e agora”. Temos também a capacidade de construir características únicas de uma relação, como a intimidade, somente pela tela do celular. Talvez estes aspectos singulares sejam trazidos para a relação pessoal, talvez eles morram com a distância e com o tempo.

Ora, eu não quero destruir as ferramentas de comunicação instantânea que a era digital nos proporcionou, são indispensáveis. Mas eu dou bastante valor pros diálogos presenciais. A simples gargalhada faz muito mais diferença do que um pobre sorriso em forma de emote. Um sorriso qualquer é muito mais valioso que uma grande risada em Caps Lock.

Ao final do dia, com o Telegram e o Inbox devidamente instaurados e sendo utilizados (o WhatsApp nem faz tanta falta assim, não é mesmo?), eu já não quero digitar para mais ninguém. Talvez eu devesse, pra passar aquela impressão para aquela pessoa, mas o que significaria afinal? De que adianta uma relação se ela não é natural e espontânea? Melhor guardar minhas histórias e piadas para contar pessoalmente, eu não tenho muitas.

Me recolho novamente ao calor e o conforto da minha cama, me escondo de novo na escuridão do quarto. Antes de fechar os olhos, ligo o celular para ver o Twitter e o Instagram, algumas mensagens, talvez. Só pelo costume.

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