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Facebook e seus novos ícones: Pequenos detalhes, grande simbolismo

por Fabiane Carrijo

Na última semana, um detalhe sutil na interface do Facebook trouxe a tona um tema bastante relevante: a valorização da mulher na sociedade contemporânea. A protagonista da mudança foi a gerente de design da empresa Caitlin Winner.

Ao vasculhar o acervo de “gliffs” utilizados no site, a designer reparou que a figura feminina no ícone de “amigos” tinha uma pequena lasca no ombro, que deixava a imagem assimétrica, diferentemente da figura masculina apresentada. Depois de abrir a imagem vetorizada e analisar a lógica de um detalhe aparentemente tão simples, Caitlin percebeu que a assimetria se devia a sobreposição da figura masculina a frente da feminina. E, claro, percebeu que esse detalhe não era um problema só dela, mas de todas as mulheres, todos os dias.

Os ícones são imagens que representam outro objeto por força de semelhança. Conforme utilizados, acabam adquirindo certa carga de sentido presente nos signos. Das pinturas rupestres ao uso das redes sociais, o ser humano sente a necessidade de ser representado de alguma forma, e essas representações trazem consigo todos os valores sociais que recebemos, de forma consciente ou inconsciente, de nossos ancestrais e seus coletivos. Inclusive aqueles que deveriam ter sido deixados nas cavernas.

Não é segredo que ainda hoje as mulheres precisam lutar diariamente por direitos equânimes em uma sociedade que se intitula moderna, mas que ainda revela seus valores patriarcais: mulheres, ainda hoje, recebem salários mais baixos, conotação e tratamento sexuais pejorativos e sofrem os mais diversos e cruéis tipos de abusos – algumas vezes velados, outras vezes escancarados. Em uma busca rápida na internet já dá pra perceber que o ícone do Facebook não é nem a ponta do iceberg.

Talvez por esse motivo, ou por razões que tangem essa questão, Caitlin mudou a imagem sem maiores questionamentos, consultando apenas uma colega de trabalho que apontou para o cartaz pendurado em sua sala que dizia: “Nada no Facebook é problema de outra pessoa”. – E o problema era mesmo de todas nós. Caitlin colocou a figura feminina à frente, no lugar antes ocupado pela figura masculina, e também alinhou a altura das mesmas. Além disso, ela alterou também o ícone de grupos, que antes mostrava apenas uma mulher na lateral, ao fundo, que agora está no centro em destaque.

Homens, fiquem calmos! Ela não quis inferiorizar os senhores e tão menos há um plano terrível por trás dessas mudanças! Apenas uma alteração que questiona o senso comum dos últimos dois mil anos e tenta, por meios iconográficos, estimular a valorização de nós, “Pagus” contemporâneas, ansiosas por cada vez mais igualdade e liberdade.

Aliás, mudanças parecidas já haviam sido feitas nesse âmbito. A designer Julyanne Liang colaborou para dar à metade não americana do planeta um ícone de notificação equivalente ao seu lado do globo terrestre e assim foi criado um ícone “Ásia-cêntrico”, para a outra metade do planeta.

A preocupação com a inclusão, valorização de pessoas e a sensibilidade com os pequenos detalhes podem até ter sido considerados irrelevantes no passado. Hoje, estão sob a lupa de empresas gigantes como o Facebook e o Google, que já entenderam que comunicação não é para os não-detalhistas e os despreocupados. Há um eco social por trás de cada ação dessas super marcas, que hoje também criam agendas para debates que interessam a todos nós.

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