Arquitetura e Urbanismo, Cursos

Vladimir Benincasa é empossado como professor da FAAC

No dia 18 de fevereiro, o arquiteto e professor Vladimir Benincasa foi empossado como professor do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da FAAC. Conheça mais sobre as pesquisas e especializaçõe do professor na entrevista a seguir.

1.O senhor se formou já faz algum tempo. Na sua opinião, o que mudou na Arquitetura de lá pra cá?

Em primeiro lugar o mercado está muito mais aquecido. Em 1989, quando me formei, em meio a uma das muitas crises da economia brasileira, era muito difícil arrumar um emprego formal como arquiteto. E também, principalmente fora das grandes capitais, a profissão de arquiteto era muito pouco conhecida, e por isso mesmo, pouco valorizada.

Por outro lado, sinto um pouco de falta de criatividade do arquiteto brasileiro contemporâneo, pouca ousadia no arriscar novas experiências formais, técnicas e, mesmo, no uso de novos materiais. Parece-me haver uma acomodação às regras ditadas pelo mercado.

2.O senhor se especializou na arquitetura rural do período cafeeiro, correto? Pode explicar um pouco sobre como surgiu a demanda de fazer esses estudos? Qual a importância de estudar esse período, especialmente aqui no interior de São Paulo?

Isso é algo que tem muito a ver com minha história pessoal: filho, neto e sobrinho de italianos que vieram ao Brasil para o trabalho em fazendas cafeeiras, cresci em meio aos relatos ligados a esse mundo. Durante a graduação surgiu a oportunidade de fazer uma pesquisa de iniciação científica com a Profa. Maria Ângela P. C. S. Bortolucci (IAU-USP), que me propôs alguns temas, entre eles, estudar antigas fazendas de café da cidade de São Carlos. Não pensei duas vezes, era a chance de entender aquele mundo vivido tempos antes pelos meus pais, avós, tios.

Logo nesse primeiro trabalho, entre os anos de 1987 e 1989, pude ver que esse era um mundo que desaparecia rapidamente sem registros, a lavoura canavieira se expandia rapidamente destruindo um patrimônio que deveria ser muito querido aos paulistas, pela importância histórica e econômica, por ter feito de São Paulo o estado mais rico da nação… Penso que o desconhecimento desse patrimônio leva a sua não valorização. Estudar e divulgar à sociedade o que ainda resta faz parte do processo que pode levar a sua preservação e reutilização. Em vários países esse tipo de patrimônio é utilizado com fins culturais e turísticos, gerando renda. Mesmo em outros estados brasileiros é possível comprovar isso, vide Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina… Nós, paulistas, estamos muito defasados nesse aspecto e vamos desperdiçando um belíssimo patrimônio com histórias interessantíssimas. Pierre Monbeig certa feita escreveu que o processo de ocupação, criação de fazendas e de cidades de São Paulo, só era comparável em termos socioeconômicos à conquista do oeste americano… Eles ganham muito dinheiro com isso, enquanto a gente…

3.As disciplinas que o senhor vai ministrar aqui na FAAC são a História do Urbanismo e a História da Arquitetura, como você acredita que os alunos recebem esse tipo de disciplina? Como essas matérias podem ser importantes quando eles começarem a construir de fato?

Em outras faculdades em que lecionei, os alunos sempre gostaram da disciplina, espero que seja assim na FAAC também. Uma coisa eu tento deixar sempre claro aos alunos: mostre-me um grande arquiteto que não tenha sido um bom conhecedor da história da Arquitetura e Urbanismo… Conhecer a história, seja ela qual for, evita errar duas vezes, evita queimar neurônios para encontrar boas soluções, ou melhor, faz com que fujamos das ruins… Não se inventa a roda duas vezes, não é mesmo? Um arquiteto deve saber o “porquê” gosta ou não de uma determinada solução, de uma determinada obra! Todo tipo de crítica – negativa ou positiva – deve estar embasada, se não é um mero “achismo” que pode ou não ser consistente, coerente…

É só através do conhecimento, do estudo do passado que ampliamos  nosso repertório cultural e podemos avançar em qualquer campo que exija a criatividade. A arquitetura é um desses campos. A preguiça intelectual, a falta de vontade de aprender é um grande inimigo de alguém que quer ser um grande profissional, um grande arquiteto. E isso é algo que é levado pela vida afora, e começa a ser construído na faculdade. Penso, assim, que o papel do professor, antes de tudo, deva ser mostrar caminhos, a escolha de quais rumos seguir cabe ao aluno.

4.O senhor já em experiência ministrando aulas. Qual são suas expectativas aqui na FAAC, tanto em termos didáticos, mas também de pesquisa e de extensão?
Eu espero poder ser um bom professor, que os alunos possam levar algo de aproveitável do que sair de minha boca e que isso lhes seja de alguma maneira útil. Pretendo continuar minhas pesquisas sobre o universo rural brasileiro, sobretudo, que me encanta, e tentar convencer outras pessoas a virem estudar o mesmo tema, para que sempre surjam conhecimentos novos… Inclusive me contradizendo, pois não tenho a ilusão de que tudo o que eu escrevi seja uma verdade absoluta. A História da Arquitetura e do Urbanismo brasileiros é muito nova, e cada novo trabalho lança novas luzes e olhares antes nem imaginados. E isso é que faz da pesquisa algo tão fascinante, não é mesmo? Esse eterno descobrir e se reinventar.

E o conhecimento gerado deve ser aplicado, deve ser sempre traduzido em ações. Penso que a recente valorização do turismo rural no Brasil, da procura pelos locais que guardam trechos da história local, da iniciativa de algumas cidades em já pensar na preservação de algumas fazendas é, em parte, fruto dessas pesquisas e de sua divulgação pela mídia. Não devemos pensar somente de forma romântica no patrimônio histórico, mas sim que ele pode e deve ser utilizado de maneira lucrativa, algo que gera trabalho, renda e desenvolvimento. Ele faz parte do turismo, que é uma das grandes indústrias mundiais, além de gerar conhecimento, educação e lazer.

 

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